O PASSO A PASSO DA HIDROPONIA – PARTE 1

A Hidroponia é um negócio que está relacionado à qualidade de vida e a produção de alimentos saudáveis de forma eficiente. O termo Hidroponia vem de duas palavras de origem grega – hidro (que significa água) e ponos (trabalho). É uma técnica de cultivo de hortaliças, frutos e flores em que as plantas não entram em contato com o solo, que é substituído por uma solução aquosa contendo apenas os elementos minerais essenciais aos vegetais.

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Com a Hidroponia, o agricultor consegue cultivar qualquer espécie de planta. No entanto, alface, rúcula e tomate são as culturas mais difundidas entre os produtores hidropônicos brasileiros. Outros cultivos bastante comuns entre os produtores hidropônicos são abobrinha, pimentão, pepino, salsinha, cebolinha, orégano, manjericão, manjerona, morango e melão, além de plantas ornamentais, como crisântemos, rosas, e gladíolos.

No Brasil, a técnica vem ganhando espaço em relação aos outros sistemas de cultivo. Não existem dados oficiais, mas a estimativa é de que a Hidroponia registra um crescimento de 20% a 30% ao ano. Esse crescimento acima da média vem despertando a atenção dos empreendedores, de Norte a Sul do país. No entanto, quem já tem mais experiência com Hidroponia recomenda aos interessados que, antes de investir, é preciso fazer um bom planejamento, pensar detalhadamente o negócio.

Muitos produtores que arriscaram implantar projetos por conta própria tiveram problemas mais adiante e acabaram saindo do mercado. Para gerir o negócio, o empreendedor deve conhecer a atividade, a propriedade rural, quanto as suas potencialidades e limitações, e o mercado que deseja atender. “Cada projeto tem a sua particularidade, mas a recomendação inicial para começar uma produção hidropônica é a pesquisa de mercado, para que se saiba, mesmo antes de se ter um projeto pronto, aonde será canalizado este produto”, ensina Cleviton Jean Corrêa de Medeiros, diretor da Hidroplásticos Comércio de Produtos Agrícolas Ltda., de São Leopoldo/RS, que presta consultoria na implantação e projetos e assistência técnica a produtores hidropônicos.

A próxima etapa é a elaboração do projeto e os recursos que serão investidos no negócio. “A partir deste ponto, vem a questão do projeto e os recursos, se próprio ou financiamento, e a análise da água”, explica o especialista, que trabalha com Hidroponia há 15 anos e atende cerca de 50 produtores hidropônicos em 30 municípios, a maioria do Vale do Sinos, além de agricultores da Serra Gaúcha, Litoral Norte, Missões e Fronteira Oeste. “Também temos alguns clientes em Santa Catarina”, lembra.

O número de agricultores que vêm preferindo utilizar sistemas hidropônicos de cultivo vem aumentando. Nos últimos anos, o crescimento do mercado tem ajudado o desenvolvimento de novas técnicas de cultivo, assim como novos recursos e tecnologias sobre o assunto. Existem diferentes técnicas hidropônicas e todas têm o mesmo objetivo; produzir plantas sem fixá-las diretamente no solo.

Como não há necessidade do solo para a produção agrícola, é possível produzir em qualquer local e em qualquer época do ano. Isto se aplica tanto para locais desérticos e áridos, quanto para áreas urbanas. Outra característica do sistema hidropônico é o cultivo no interior de estufas. As plantas não têm contato direto com o solo e não entram em contato com os contaminantes do solo, como bactérias, fungos, lesmas, insetos e vermes, O cultivo protegido modifica as condições meteorológicas e garante plantas mais sadias, que podem ser produzidas  durante todo o ano.

Outros pontos positivos de se produzir sem o uso do solo são a redução dos custos operacionais e a ausência de fungicidas e inseticidas, que melhoram a qualidade do produto, poupam o desgaste da terra e contribuem imensamente para a preservação do meio ambiente. “A redução do uso de defensivos no sistema hidropônico chega a 60%.”, destaca Medeiros, que há oito anos é produtor hidropônico.

A menor utilização de mão de obra é mais uma vantagem da Hidroponia. Mesmo poucas pessoas conseguem tocar o negócio. As atividades absorvem muito bem a mão de obra familiar. Idosos, jovens, crianças, homens, mulheres podem participar. Não há capina, nem manuseio com tratores e implementos agrícolas. “Em um sistema hidropônico se usa menos da metade da mão de obra que o sistema convencional”, diz o diretor da Hidroplásticos. “A Hidroponia, que eu considero a agricultura do futuro, traz vantagens por apresentar maiores índices de qualidade e produtividade e também por ser um trabalho mais leve e não sofrer tanto com as intempéries climáticas”, acrescenta o Prof. Dr. Jorge Barcelos, que dirige o LabHidro, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

No entanto, dentre os fatores que podem inibir o crescimento do negócio, estão os custos de produção mais altos se comparados com os da agricultura convencional, o preço elevado da estrutura física e a escassez de mão de obra especializada. Essas variáveis podem se refletir no preço dos alimentos hidropônicos que chegam à mesa do consumidor.

Por isso, antes de começar um projeto de Hidroponia, o produtor deve fazer uma análise do mercado para verificar qual o melhor cultivo para a sua região, analisar o preço que poderá vender estes produtos e quanto é necessário produzir para obter lucro. “Não é necessário ter conhecimentos em química, nutrição ou inglês para começar a produzir alimentos pelo sistema hidropônico. O que precisa é a confiança e interação com a empresa que fornece insumos e do acompanhamento técnico, para que o resultado seja bom”, frisa o diretor da Hidroplásticos.

O consultor hidropônico Adriano Delazeri, da Hydroponic, de Cachoeirinha/RS, diz que a maioria das pessoas que está começando ou querendo investir nunca trabalhou com agricultura, como empresários, advogados e comerciantes. Ele garante que a Hidroponia é uma atividade excelente para investimento, mas frisa que, mais importante do que pensar no mercado ou outros fatores como a localização do empreendimento, o interessado deve fazer algum curso prático.

“Hoje em dia, tem muita informação disponível na internet e as pessoas acabam se iludindo. Mas primeiro é preciso que elas façam um curso prático, de preferência dentro de uma unidade de produção”, ressalta. “A demanda por produtos hidropônicos é tão grande que, independente do lugar ou o que ele for produzir, o investidor terá um retorno certo, em menos de dois anos”, assinala Delazeri. “O mais importante é conhecer a técnica, o resto vem naturalmente”, encerra o especialista da Hydroponic.

Localização

A localização do terreno onde será instalada a hidroponicultura é fator muito importante para o negócio. Deve estar localizado em área não muito distante do mercado consumidor, porque quanto mais distante maior o valor do frete. A infraestrutura disponível no local é fundamental, como energia elétrica e água de boa qualidade. “A disposição da estufa dentro da área a ser implantada o sistema hidropônico é muito importante, o desnível do terreno também, distância da casa de quem vai cuidar, distância da entrada de luz, acesso de veículos para retirar a produção”, recomenda Medeiros.

Outro aspecto importante é a topografia do local, que deve apresentar, de preferência, uma pequena inclinação – em torno de 5% (embora possam ser utilizados terrenos com inclinações superiores a 20%) e posicionado de forma a oferecer um aproveitamento superior da energia solar (luz e calor).

A Hidroponia tem importância em vários aspectos. Nas áreas urbanas, assim como nas rurais, de muita pobreza, o sistema de cultivo tem um valor social por que representa um meio válido para a criação de fontes de trabalho, favorecendo a formação de microempresas. Ela ainda utiliza o tempo livre de alguns membros da família, reduz os custos para as compras dos alimentos, aumenta o acesso a alimentos de melhor qualidade e a geração de renda.

Exigências legais específicas

O produtor rural pode explorar a atividade de duas formas: pessoa física – denominado empresário rural; ou pessoa jurídica – na forma de Sociedade Empresária Rural. O registro do empresário rural e da sociedade empresária rural é facultativo na Junta Comercial. Caso a atividade seja exercida por meio de uma Sociedade Empresária Rural, é necessário contratar um contador profissional para legalizar o empreendimento nos seguintes órgãos: Secretaria da Receita Federal (CNPJ); Secretaria Estadual de Fazenda; prefeitura do município para obter o alvará de funcionamento; Registro no Ministério da Saúde (se houver a produção de alimentos); Conselho Regional de Química; Enquadramento na Entidade Sindical Patronal (a empresa ficará obrigada a recolher por ocasião da Constituição e até o dia 31 de janeiro de cada ano a Contribuição Sindical Patronal); Inscrição como produtor rural na unidade fazendária; Cadastramento junto à Caixa Econômica Federal no sistema “Conectividade Social – INSS/FGTS”.

Em relação ao Corpo de Bombeiros, não há uma legislação específica para a Hidroponia como cultivo de plantas sem solo, estando então, o empreendedor, dispensado de registros específicos referentes à prática hidropônica. Mas devido esta prática ser um tipo de cultivo de planta, necessita-se dos registros específicos à prática de agricultura. A maioria dos cultivos hidropônicos utiliza agentes químicos ou físico-químicos no processo de obtenção de seus produtos. Desta forma, tem-se a necessidade de  Responsabilidade Técnica, devendo o estabelecimento manter um técnico habilitado junto a Conselho Regional de Química, com registro de pessoa jurídica junto ao Conselho de Classe.

Além destas regulamentações referentes ao técnico químico, à Vigilância Sanitária e às conformidades dos produtos, deve-se ter conhecimento e exigir do fornecedor das matérias-primas informações relativas a sua composição. A solução nutritiva que realiza a nutrição das plantas em substituição ao solo, tão importante ao cultivo hidropônico, contém componentes químicos, os quais necessitam de registro específico.

A legislação referente aos fertilizantes minerais presentes na solução nutritiva tem sua legislação específica descrita na Instrução Normativa n.5 de 23 de fevereiro de 2007, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (BRASIL, 2007). Dentre outros normativos aplicáveis à atividade destacamos: A Lei 10.165 de 12/2000 dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação. A Lei 7.754 de 04/1989 estabelece medidas para a proteção das florestas existentes nas nascentes dos rios e dá outras providências. A Lei 9.605 de 02/1998 dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio-ambiente, foi alterada pela Lei 9.985/2000 e MP 2.163/2001.

Estrutura

Existem projetos hidropônicos de diversos portes, desde aqueles que utilizam uma pequena estrutura até sistemas mais sofisticados, com uso de sensores e controladores que comandam o fornecimento da solução nutritiva, climatização e modificação atmosférica da estufa (casa de vegetação). Por isso, antes da instalação da estrutura física o empreendedor deve responder algumas questões principais, como que será produzido, onde será produzido, qual o tipo de sistema hidropônico a ser utilizado, qual o volume de produção desejado e o orçamento disponível.

Os sistemas hidropônicos podem ser classificados quanto ao sistema de suporte (orgânicos, inorgânicos ou solução nutritiva), quanto à circulação da solução nutritiva e quanto à oxigenação da solução. Dentre os principais sistemas de cultivo hidropônicos destacam-se o  NFT (Nutrient Film Technique), que é usado por cerca de 90% dos produtores hidropônicos brasileiros; Bancada Individual; DFT ou floating, Subirrigação;  Aeroponia, Aquaponia e Pavio. Uma vez respondidas estas questões, o empreendedor deverá proceder ao dimensionamento das instalações que, em linhas gerais, compreende a Área de Produção e a Administração.

Área de Produção

Para se realizar uma cultura de Hidroponia, necessita-se de uma estrutura que possa proteger a produção. Esta estrutura de proteção denomina-se estufa ou casa de vegetação, e visa proteger a plantação contra os agentes meteorológicos desfavoráveis. A estufa deve ser asséptica, próxima a fontes de água e energia elétrica e com trânsito limitado de pessoas.

Deve ser separada em áreas distintas para germinação, berçário das mudas e  crescimento das plantas. É o local onde são instalados os perfis e as bancadas de cultivo. A instalação do reservatório de água e nutrientes, bombas, túneis, terraplanagem, pontos de água, energia elétrica e outros recursos de apoio, devem ser feitas próximas a Casa de Vegetação e seguir recomendações técnicas. A área de produção deve dispor ainda de um local coberto e fechado destinado ao armazenamento de insumos, ferramentas etc.

Administração

É o local destinado às atividades administrativas direcionadas à compra de sementes, mudas, insumos e demais artigos que compõem o estoque de matéria-prima. Também são realizados os contatos comerciais, controles financeiros e acompanhamento do desempenho do negócio, pagamentos de fornecedores e outras que o empreendedor julgar necessárias para o bom andamento do empreendimento.

Pessoal

A quantidade de profissionais está relacionada ao porte do empreendimento. Para uma hidroponicultura de pequeno porte pode-se começar com o próprio empreendedor e um ajudante, pois um único empregado pode cuidar de mais de 10 mil plantas. A Hidroponia trabalha com uma tecnologia moderna, porém de fácil acesso ao agricultor interessado. Ele poderá conhecer a metodologia por meio  de apostilas, fitas de vídeo, DVDs, ou visitar universidades e hidroponias já instaladas e em funcionamento.

O empreendedor também deverá participar de seminários, congressos e cursos direcionados ao seu ramo de negócio, para manter-se atualizado e sintonizado com as tendências do setor. Várias empresas do segmento oferecem cursos, que trazem desde os primeiros passos da Hidroponia até conteúdo para os mais experientes. O produtor precisa estar atento ainda para a Convenção Coletiva do Sindicato dos Trabalhadores nessa área, utilizando-a como balizadora dos salários e orientadora das relações trabalhistas, evitando assim, consequências desagradáveis.

A experiência de quem começou há mais tempo

Família de descendentes italianos que deixou São Paulo e viveu muitos anos em Rondônia trabalhando com cultivo de cacau e seringueira, no começo da década de 1990 os Calderaro decidiram voltar à suas origens e se transferiram para São Miguel Arcanjo/SP, município localizado na Região Sul de São Paulo. Eles pretendiam continuar na agricultura e, após algumas tentativas de culturas, como milho, feijão e uva, optaram por implantar o sistema de cultivo hidropônico. “Decidimos trabalhar com Hidroponia na época, porque se tratava de algo novo e queríamos ter um produto diferenciado”, diz Luiz Fernando Calderaro, que trabalha junto com o pai, Mário Calderaro, na Hidropônicos Calderaro.

O primeiro contato com a Hidroponia ocorreu em 1992, quando Mário foi entregar uvas em um sacolão e ficou impressionado com a beleza de uns pés de alface hidropônica, que custavam à época cerca de USS 1. Logo em seguida, o agricultor resolveu  fazer um curso básico de Hidroponia, em São Caetano do Sul/SP, e construiu os primeiros canteiros para aprender, na prática, o que lhe havia sido ensinado. “Apesar de ter feito o curso, as dificuldades eram muitas, pois as informações a respeito de Hidroponia eram poucas”, lembra Luiz Fernando.

Logo em seguida, Mário matriculou-se em um curso ministrado pelo pesquisador Pedro Roberto Furlani, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), considerado uma das maiores autoridades em Hidroponia do Brasil. “O restante, nós aprendemos com a prática e o tempo, mas não foi fácil”, recorda o jovem produtor.

Os agricultores optaram por um projeto hidropônico de médio porte, para produzir alface crespa, da variedade Verônica, e lisa, da variedade Regina. Contavam com apenas um colaborador e a força familiar dava conta da produção. Mas, como o empreendimento está localizado a 220 quilômetros de São Paulo, para compensar o frete era preciso aumentar a produção. “Quando os clientes conheceram o nosso produto e começaram a indicar para os amigos, não paramos mais de ampliar a área com hidropônicos”, salienta. Hoje, a área com Hidroponia é de 60 mil metros quadrados  e a propriedade emprega, em média, 40 pessoas.

Luiz Fernando aposta no crescimento da técnica e diz que existe mercado para todos. Recomenda, porém, que os novos empreendedores façam uma pesquisa de mercado antes de investir. “Sempre digo que tem mercado para todos. O importante é fazer uma pesquisa de mercado e iniciar com uma produção pequena e aprender a produzir por um período, para depois entrar no mercado”, sugere. “O mercado não quer aventureiros e, sim, profissionais”, completa. O setor possui gargalos que desafiam os produtores. “O primeiro é o desafio de produzir com qualidade o ano todo e, o segundo, encontrar parcerias e não mercados que só querem ganhar”, adianta.

O jovem produtor ressalta que na Hidroponia existem projetos de diferentes portes e não é preciso um grande investimento para começar na atividade. O investimento inicial dependerá de cada um, afirma. “Estes dias visitei duas hidroponias que tinham 1,2 mil metros quadrados. Uma, o proprietário comprou estufas usadas e fez adaptações e gastou R$ 40 mil. A outra, com estufas e perfis novos, tela lateral e sombrite na parte superior, ficou no mínimo em R$ 100 mil”, revela Luiz Fernando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Por Gustavo Paes

Revisão e publicação: Gabriel Costa

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