ENTREVISTA – LUIZ GERALDO SANTOS: ESPECIALISTA EM SEMI-HIDROPÔNICO ORGÂNICO

07/04/2020

É com pesar que a Plataforma Hidroponia comunica o falecimento de Luiz Geraldo Carvalho Santos, engenheiro agrônomo e sócio-gerente da Ensistec Academia, de São Paulo. Através da empresa, Luiz foi mais um profissional a fortalecer o setor da Hidroponia cultivando conhecimento e trabalho. A Ensistec é voltada à formação avançada em cultivo protegido de alta tecnologia em todo o Brasil, e Luiz Geraldo sempre foi um incentivador do planejamento e da gestão nos produtores. Desejamos força à família e paz ao companheiro de profissão. Como homenagem, publicamos hoje uma entrevista realizada com ele na edição 22 da Revista Hidroponia, lançada em junho de 2019.

ENTREVISTA / Junho de 2019

Luiz Geraldo Carvalho Santos – Especialista em semi-hidropônico orgânico

O engenheiro agrônomo Luiz Geraldo Carvalho Santos é sócio-gerente da Ensistec Academia, de São Roque/SP, uma empresa voltada para produção de tomates de alta qualidade em sistema sustentável. Com controle biológico e uso de alta tecnologia, ela oferece consultoria técnica na produção de hortaliças orgânicas e convencionais, planejamento, manejo fitossanitário, nutrição e irrigação. Formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), em 1988, com formação em entomologia, inseticidas naturais e nutrição de plantas, Santos é especialista em produção de tomate orgânico desde 1989 e também presta consultoria à Fazenda Malunga (Brasília/DF), que é referência em produção de hortaliças orgânicas no país, e à Sakata Seed Sudamerica no desenvolvimento do cultivo orgânico do tomate sweet grape. Em seus cursos, que atraem alunos de todo o Brasil e até do exterior, o engenheiro agrônomo ensina desde como elaborar o projeto e construir a estufa, o manejo da produção de hortaliças orgânicas e convencionais até o planejamento, a viabilidade e a gestão do negócio. “O investimento em estrutura não é pequeno e o agricultor precisa ser um empresário”, salienta Santos.

Quando foi criada a Ensistec Consultoria e Treinamento em Agricultura Orgânica?

Eu trabalho desde 1989 com agricultura orgânica. Me formei em Agronomia na Universidade Estadual de Londrina (UEL) em 1988 e comecei a trabalhar em empresas orgânicas. A Ensistec Consultoria e Treinamento em Agricultura Orgânica foi criada em 2002 e oferece consultoria técnica na produção de hortaliças orgânicas e convencionais, planejamento, manejo fitossanitário, nutrição e irrigação. Sou especialista em produção de tomate orgânico e trabalho como consultor da Fazenda Maluga e da Sakata Seed Sudamerica no desenvolvimento do cultivo orgânico do tomate sweet grape.

O que o levou a apostar na produção orgânica?

Na faculdade, eu estudei a relação da nutrição-sanidade. Eu comprovei a teoria do idealizador da Teoria da Trofobiose, na qual é determinado que uma planta nutricionalmente equilibrada (sadia) está menos suscetível às pragas e doenças do que uma planta desequilibrada nutricionalmente. Embora esse conceito pareça simples, ele é de extrema importância tanto para a agricultura convencional como para a agricultura orgânica, pois o seu entendimento é fundamental para que o produtor tenha uma plantação orgânica com menos pragas e doenças. Fizemos trabalho a campo. No meu primeiro emprego, eu tive a oportunidade de aplicar esse conceito e consegui resultados muito bons no cultivo de tomate grape, em 1995. Trabalhava em São Roque/SP e obtive uma média de 7,5 quilos por planta de tomate. Foi uma produção muito boa até se for comparada com as produções atuais. O cultivo era desenvolvido em estufas plásticas, no solo.

Como começou a sua relação com a Hidroponia?

Em Itapecerica da Serra/SP, a minha nutrição não funcionou da mesma forma que em São Roque/SP devido ao clima da região, que era bem diferente. Fui dar consultoria a um produtor e a minha fórmula não funcionou lá. Comecei a quebrar a cabeça e iniciei os estudos sobre Hidroponia. O princípio da Hidroponia diz que é necessário mudar a relação de potássio entre o inverno e verão. Aquilo me deu uma luz para testar. Em Itapecirica da Serra/SP, deu para colher tomate no inverno, pois o clima era sensivelmente mais quente do que em São Roque/SP, onde era possível colher tomate até o mês de outubro. Eu tive de ajustar a relação nitrogênio-potássio para conseguir o resultado. Eu também testei com o morango, que era cultivado no campo e estufa. Peguei o conceito de nutrição do cultivo hidropônico e aperfeiçoei o conceito de clima-nutrição-sanidade, senão não conseguiria produzir orgânico.

Em quais outras culturas esse conceito também foi usado?

Em função dos bons resultados, a consultoria começou a ser chamada para atender os problemas dos produtores convencionais, que produziam usando o solo. Em Piedade/SP, trabalhei até com flores, mas sempre utilizando o mesmo conceito de clima-nutrição-sanidade. Eu segui estudando Hidroponia e, em 2010, consegui resultados melhores do que os produtores que cultivavam tomate da maneira convencional, em estufas plásticas no solo. Por indicação da Sakata Seed Sudamerica, fui contratado, já que conseguia melhores resultados no orgânico do que o convencional. Eu padronizei o manejo do tomate sweet grape semi-hidropônico. Gerei um padrão de manejo e no desenvolvimento do cultivo do sweet grape para a Sakata, onde trabalhei de 2010 a 2014.    

Qual o perfil dos clientes da consultoria?

Em 2015, 90% dos produtores eram semi-hidropônicos. Mas, hoje, 100% dos clientes da consultoria são produtores que trabalham com orgânicos. É o mercado que determina o rumo que se vai tomar. A gente atende o cliente. Mas eu descobri um câncer e comecei a fazer o tratamento com quimioterapia, o que me obrigou a me retirar. Fizemos um trabalho com a Hidroceres, na unidade do Centro Hidroceres de Difusão de Tecnologias (Cehicon), em Santa Cruz do Rio Pardo/SP.  

Quando começaram os cursos da Ensistec? Quantas pessoas já foram capacitadas?

Em abril de 2018, eu descobri um câncer e retirei 40 centímetros do intestino. Até então, eu viajava 45 semanas por ano, mas tive que dar uma parada para fazer o tratamento. Ainda na cama do hospital, comecei a pensar em uma estratégia para sustentar a minha família, como fazer para manter as filhas estudando. Foi quando decidi iniciar os cursos de marketing digital, que mudaram a minha vida. Cerca de 520 alunos já foram capacitados nos cursos. Foram 180 nos 15 cursos avançados de agricultura orgânica promovidos na Fazenda Maluga, de 2008 a 2011, 160 nos sete cursos avançados de cultivo protegido realizados no Cehicon e outros 180 nos cursos da Ensistec/Flortec. O perfil dos alunos é bem variado, mas formado principalmente por produtores orgânicos. Também há produtores convencionais e hidropônicos. As aulas são apostiladas e a gente faz uma webinar exclusiva para os alunos.

Quais são os cursos que a empresa oferece?

A Ensistec, que passará a se chamar Ensistec Academia, oferece cinco módulos. No primeiro, chamado de Irrigação e nutrição, os alunos aprendem a evitar faltas e excesso de irrigação, que podem causar várias desordens e desequilíbrios que geram problemas de pragas e de doenças. Também são orientados sobre como deve ser feito o balanço nutricional para obter plantas resistentes e produtivas, além de controlar as quantidades de água e fertilizantes a serem aplicados, gerando ótimo controle econômico da produção. Eles ainda recebem noções de como o clima afeta a nutrição e a irrigação, permitindo que o produtor saiba o que esperar do sistema que ele já tem e o que é necessário para melhorar. O segundo curso, Manejo biológico em cultivo protegido, ensina os alunos as bases para fazer um controle biológico bem-sucedido e como que o manejo do sistema auxilia a ter sucesso na substituição ou eliminação dos agrotóxicos sintéticos. Nesse treinamento, eles também aprendem o momento correto de utilizar agentes biológicos de controle para conseguir alta eficiência na proteção contra pragas e doenças.

E no módulo Manejo de Cultivo Protegido?

Os módulos 4 e 5 ainda não estão prontos, mas já têm 36 alunos cadastrados. Por meio do curso Manejo de Cultivo Protegido, eles aprendem que o modelo de estufa é que determina o resultado do produtor e recebem orientações de como tirar o máximo do seu sistema. Nós ensinamos como manejar corretamente a sua cultura dentro das possibilidades de sua estufa, para obter o melhor resultado. Também aprendem sobre o uso de equipamentos de controle de clima, como ventiladores, nebulizadores, telas de sombreamento, cortinas, quando e como utiliza-los corretamente.

E o módulo final?

O quinto módulo chama-se Planejamento, viabilidade e gestão do negócio de produção em estufas. Nele, os alunos são capacitados para analisar a viabilidade econômica do seu negócio de estufas. Eles aprendem a fazer a análise de custos de produção, quais os fatores mais importantes e como decisões de manejo do dia a dia impactam no resultado financeiro do projeto. Também são orientados sobre decisões de investimento, quando é melhor fazer uma estufa mais simples ou mais tecnificada e também como agregar valor à sua produção para se posicionar de forma lucrativa no mercado. O fundamental é que eles aprendem que, além de serem produtores, também são empresários.

Por Gustavo Paes Revisão e Publicação: Gabriel CostaFonte: Luiz Geraldo Carvalho Santos

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